Reformar ou restaurar?

Reformar ou restaurar? Desde que comprei a Dercy, tinha por ideia transformá-la em uma moto para meu uso diário na cidade, com funcionamento confiável e visual enxuto. Nada além de uma bobber motorizada com tanque de baixa capacidade e autonomia.

Do ponto de vista funcional e visual, queria algo bem distante do que foram as Electra Glide com motores Shovelhead do final da década de 60, cuja carenagem e lataria conferiam à moto uma imponência excessiva. Basta dizer que essas motos vinham, de fábrica, com cabeça-de-touro envolvendo um farol de 7", par de faróis auxiliares, pára-brisas, tanque de alta capacidade, pára-choques, mata-cachorro, alforges rígidos, buddy seat, bagageiro, console, lataria envolvente (com morcegão, às vezes), plataformas e mais um monte de peças que a transformavam numa gorda de incríveis 360 Kg.


Para se ter uma ideia, a Sportster 1200, mesma cilindrada da EG 1200, pesa apenas 250 Kg. São 110 Kg a menos (o peso de uma Honda Titan 150 cc), obviamente considerando que aquelas não usam carburador, relês e dínamos que fazem o sobrepeso transparecer ainda mais.

Mas o caso é que, quando comprei a moto ela estava distante do original. Não vieram os alforges, windshield, buddy seat ou os comandos do guidão. O freio dianteiro havia sido trocado por uma pinça banana de uma shovel 72 (sem funcionar) e a parte elétrica precisava de uma revisão geral.

Comprei como 66 mas ela é 69. A pintura não era original e, pelo que pude rastrear, veio de um leilão da Marinha, passou por um moto-clube, serviu um tempo de vitrine e decoração em um bar na Lapa, passou pelo San e acabou na minha mão.

 O motor estava em boas condições, ainda que babasse óleo pelas juntas e pelos eixos dos balancins do cabeçote. A relação coroa-corrente-pinhão precisava ser trocada, assim como o dínamo que não carregava a bateria, a caixa de direção que estava com calos e a suspensão dianteira que dava fim de curso.

Ou seja, era tudo o que eu queria. Uma antiga precisando mais de uma reforma do que de uma restauração. É isso mesmo: reforma e restauração são coisas diferentes. A primeira significa dar outra forma, consertar, reparar, reabilitar, recuperar. A segunda, voltar a moto ao original, instaurar de novo, retornar ao novo.

E aqui vai o motivo pelo qual decidi comprar a Aracy assim que ela surgiu. Essa moto é uma legítima FL 1966 (sei disso pela marcação do motor, ausência de relê de partida, kick start e bomba de óleo de ferro), trazida a mim com os alforges rígidos, buddy seat, pára-brisas, pára-choques, freios originais, comandos do guidão originais, faróis auxiliares e tudo o mais.

O motor está fumando mas não conheço nenhuma outra 66 tão original como ela. A moto pede uma restauração e, pode crer, vou seguir no projeto PLACA PRETA para ela.


Shovelhead 77 do Ricardo - ES

Portanto, o caso é esse. A Dercy Gonçalves fica para a reforma e customização enquanto a Aracy de Almeida segue para o restauro com placa preta.

Duas velhinhas que deverão me dar muito trabalho e um bocado de prazer pelos próximos anos.


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