Reforma de uma antiga em casa

"Fazer na oficina é fácil. Quero ver fazer em casa..."

A esta altura, creio que posso arriscar dar umas dicas àqueles que pretendem reformar ou restaurar uma moto antiga na garagem. Não vi nada parecido na net, exceto alguns textos de restauradores profissionais cujos princípios não se adéquam à realidade de quem pretende fazer tudo sozinho.

Não creio que haja qualquer novidade mas essa é a minha visão do trampo pela experiência que vivi. Se vai servir para alguém eu não sei. E nem quero saber. Então, vamos lá:

ESPAÇO

Você vai precisar de espaço, tanto para trabalhar na moto quanto para guardar as peças novas e usadas que você não vai utilizar. As cidades hoje em dia estão inchadas e os espaços são bastante disputados e caros. Não perdi a esperança de achar um buraco exclusivo para as shovel e, enquanto não encontro, vou seguindo umas regras básicas que, bem ou mal, me permitem trabalhar nas motos.

 Uma moto não ocupa uma área muito grande (cerca de 3 m2), mas é preciso considerar ainda uma área de trabalho de pelo menos mais 6 m2 para transitar ao redor da dela. É possível ocupar uma área menor? Sim, mas fica um pouco mais complicado.

Na foto do banner do blog é possível observar a área que normalmente ocupo para a reforma. 3 m2 quando não estou trabalhando e 9 m2 quando estou. Faço tudo na garagem do edifício e somente assumi a empreitada porque sabia onde eu estava pisando.

Sei que quem mora em edifício sofre limitações e o risco de se indispor com os vizinhos é grande. Por isso, recomendo bom senso. Não é porque você é bem quisto no pedaço (ou seus vizinhos te temem) que deve abusar. Afinal, trata-se de uma garagem, e não uma oficina, certo?

Ao terminar sua sessão de trabalho, recolha as ferramentas, cate tudo o que estiver nestes 6 ou 9 m2, evite óleo no piso, jogue as embalagens e resíduos no lixo. Enfim, elimine os vestígios de sua reforma. E cubra a moto quando não estiver trabalhando. Sempre!

Se você não dispõe de uma garagem ou dispensa própria para isso, você deverá guardar suas peças dentro de casa. E, parceiro, elas ocupam muito espaço. Paralamas, farol, lanternas, tanques, carburador, banco, guidão e partes diversas da moto vão para dentro de casa, sujas de óleo e com cheiro de gasolina. Neste caso, as varandas são de grande ajuda, pois, normalmente, são pouco usadas e possuem boa ventilação.

Mas não se iluda. Boa parte das peças vai para um quartinho ou um bom armário mesmo. Não tem jeito. São ferramentas de todo tipo, furadeira, marreta, chaves, fitas, fios, parafusos, arruelas e porcas convivendo com manicotos, manetes, manoplas, retrovisores, alternador, motor de partida, relês, corrente, etc. Isso sem falar nas indispensáveis latas de WD-40, silicones, limpa-contato, tintas, fluidos, óleo e tudo que você certamente precisará em algum momento.


Agora, a não ser que você seja solteiro e more sozinho, procure manter tudo fechado, longe das vistas dos outros convíveres da casa, se for possível. Muita coisa vão ter que entubar mesmo e, além disso, você certamente irá executar vários trabalhos dentro de casa. Entretanto, se manter a regra de eliminar os vestígios ao finalizar, tudo certo.

A logística é algo a se considerar. O leva e traz de peças e ferramentas entre a casa e a moto deve ser o menos complicado possível. Eu deixo as ferramentas no porta-malas de um velho Santana 2001 e mantenho um carrinho na garagem com uma bateria, um galão de gasolina, uma lata de óleo, uma lata de querosene, luvas, pasta rosa, estopas e panos diversos. Um conhecido adaptou um pequeno armário a um carrinho desses e transita numa boa. É cada qual se adaptando a seu modo.

E o mais importante: todos na sua casa devem não só saber, mas reconhecer, que isto é algo muito importante para você. É algo que te faz viver mais feliz, mais produtivo no trabalho, mais paciente em casa, mais companheiro. Só por isso, já vão querer que você compre uma segunda moto para reformar.

TEMPO

A não ser que você deixe sua antiga numa oficina e encomende o serviço completo de reforma, será necessário dispor de algum tempo para a empreitada. Como não tenho pressa, resolvi dedicar os sábados de manhã para trabalhar na moto. Algo em torno de 5 horas por semana. Mais que isso, minhas costas vão pro saco.

5 horas/semana pode não ser suficiente, mas tem moto em oficina que não vê nem 1 hora por semana. Fica lá por meses sem terminar. Assim, prefiro que fique na minha casa, sob meu controle.

Mas é preciso reconhecer que o tempo de dedicação a uma moto de 44 anos de idade é diferente do necessário para uma nova. Quem segue o blog acompanhou a saga para retirar as pistas dos rolamentos da caixa de direção da Dercy. Ou ainda a peleja para conseguir retirar as bengalas do lugar. Às vezes, é preciso recorrer aos amigos, como no caso da retirada do tampão da bengala na garagem do Maurício Henriques. Por isso que os mecânicos mais experientes tendem a fugir dessas motos. Preferem as novinhas.

 Mas não é só. Você precisa ter tempo para pesquisar peças na internet, para aguardar elas chegarem, para ir a um torneiro mecânico, para encomendar uma junta, para comprar uma ferramenta, para selecionar um parafuso etc. E acima de tudo: para estudar. Na internet não tem tudo. No youtube também não. Idem no Jurassic Machines do meu querido amigo Hadys. Mas nesses lugares tem fumaça e, onde tem fumaça...

Imagino que, além das 5 horas semanais de oficina, ainda gaste 2 horas por dia dedicando à reforma, seja vendo um vídeo, seja lendo um texto, atrás de uma ferramenta ou informação. Inclua ainda uma ou outra postagem no blog, uma visita a um fórum e a checagem de e-mails relacionados a motos. No total, seriam umas 15 horas por semana ou 60 horas em um mês de dedicação.

DINHEIRO

Você não precisa ser rico ou remediado mas será necessário gastar uma grana com sua reforma. As peças nos EUA até que são baratas mas, para chegarem aqui, o custo do frete + impostos elevam muito o investimento na empreitada.

Evite economia em troca da confiabilidade de receber as peças. Digo isso porque já andei levando uns canos por optar por vendedores pouco confiáveis que atraem os compradores com fretes baratos. No eBay está cheio deles. Às vezes, a peça está em um preço razoável e o frete é de apenas US$ 6,50. Excelente: nem passa dos US$ 50,00 de limite de incidência do maldito Imposto de Importação. Mas, quem disse que a peça chega?

A meu ver, perde-se tempo e dinheiro. Compre tudo por Priority Mail USPS. Você paga algo mais, mas pelo menos sua peça chegará.

Tenho sido assíduo na JP Cycles. Os caras tem todas as peças, atendem muito bem, tiram dúvidas via chat, e em menos de 30 dias sua encomenda chega. O imposto é (quase) certo. Vai na sorte. Para a Dercy, fiz 8 compras com uns 50 itens e, em apenas 2 encomendas, eu não paguei imposto. E foi uma boa compra. No total, Dercy custou uns R$ 1.400 de impostos + R$ 800 de frete (só pela JP). R$ 2.200 de custo extra por morar no Brasil.

Na JP, o preço das peças é um pouco mais elevado e o frete é razoável. Tudo bem embalado. Faça opção para ser um Gold Member, que tem descontos e vale a pena para quem compra muito. Para ser um membro você paga US$ 50,00 e ainda ganha uns brindes bacaninhas.

O quanto você vai precisar depende de quanto você precisa reformar. Se sua antiga está em boas condições, seu custo será mais baixo. Se você precisar de algo mais intenso, pode separar uns R$ 10 mil. Se a moto nem tiver rodando, suba para uns R$ 15 mil. Se for uma restauração completa, pode triplicar isso aí. Isso para você mesmo mexer na moto.

Não pretendo gastar muito no projeto placa preta da Aracy. Ela está em excelentes condições, mesmo com uns "probleminhas" no motor (tomara), necessidade de pintura, revisão da suspa dianteira, rolamentos, caixa de direção, motor de partida, relação coroa-corrente-pinhão etc. Não tenho ilusão: para a placa preta, não gasto menos que R$ 10 mil.

Se você está começando do zero, pode computar aí ainda o custo das ferramentas. Pelo menos uns R$ 1 mil, para começar. Além disso, reserve cerca de R$ 600 para um pequeno e robusto elevador, e mais uns R$ 300 para umas bandejas, sacos plásticos, etiquetas, abraçadeiras, porcas, parafusos etc.

FERRAMENTAS

Falando nisso, nada do que você fizer será bem feito se não puder contar com boas ferramentas. Digo boas porque não precisam ser ótimas. Uso ferramentas Mayle, Belzer, Gedore e Tramontina, sem susto.

Um bom conjunto de bits intercambiáveis de fendas, phillips e allen são bem vindos. Esqueça os Torx. As antigas não usam esses parafusos.

Um torquímetro de vara deve servir. Um conjunto de chaves combinadas em milímetros e outro em polegadas é fundamental. Catraca com um jogo de soquetes idem. Não vou aqui enumerar quais as dimensões das chaves e soquetes mas tenha algo que vá de 6 mm a 31 mm.

Você precisará de um elevador. Pode ser modesto mas elevar a moto é importantíssimo, principalmente depois de 2 horas de trabalho. Suas costas vão agradecer. Aqui você tem acesso a uma postagem sobre o assunto: Elevadores para moto

 Também existem algumas ferramentas específicas que ajudam muito. Um exemplo é o posicionador das pistas dos rolamentos da caixa de direção. Fiz uma postagem sobre isso aqui:  A ferramenta certa

No mais, todo alicate será bem vindo. De bico, plano, de corte, de pressão, chave inglesa, universal, extensível etc. Também tenha um calibre de lâminas de medição, trena em polegadas, multímetro, fitas adesivas, isolantes, silicone, Locktite vermelho e azul, abraçadeiras plásticas, de metal e grampos.

Tem mais uma coisa: sem uma morsa, desista. E é muito desejável um ar comprimido. Eu não tinha e levava as peças em um posto de gasolina próximo. Quando não dava, usava a pressão do WD mesmo.

ORGANIZAÇÃO

Antes de começar a desmontar, tenha em mãos organizadores, sacos plásticos com fecho, etiquetas e pequenas caixas de plástico que lhe ajudem a separar as coisas. Não comecei assim. Fui jogando tudo numa caixa velha e agora perco tempo procurando a porca ou a arruela certa.

As peças que você vai retornar à moto devem ficar no mesmo lugar que tirou . Trocar um rolete de tucho de cilindro dianteiro por um do traseiro é sinal de problema. O mesmo com os eixos e balancins, varetas etc. Por isso, as etiquetas e sacos plásticos ajudarão a organizar a bagunça, evitando que os componentes do motor sejam misturados.

Uma dica importante é fotografar a ordem das coisas. Não toma tempo e ajuda pracaraleo quando você for montar tudo 6 meses depois.

CONHECIMENTO TÉCNICO

Essa é a parte mais difícil porque conhecimento não se compra. É preciso gostar de estudar o assunto. Se você não tem uma base de mecânica e disposição para meter a mão, na primeira dificuldade você abre o bico e desiste.

Fiz um semestre de uma matéria teórico-prática de mecânica em motores ciclo otto e ciclo diesel na universidade. Cresci vendo meu pai fuçar uns motores e ferramentas nunca foram estranhas lá em casa. Tivemos um Mustang Hard Top 69 e outro Guia 72 na garagem durante anos, vivendo entre panelas de carburadores de V8. Mas estou longe de ser mecânico e tive dificuldades fodas para resolver durante este último ano em que reformei a moto.

Não é nada impossível, ainda mais com a quantidade de informações disponíveis na internet hoje em dia. Mas ter uma base e saber ler um pouco em inglês é fundamental, porque não há quase nada em português (aliás, esse é um dos motivos pelos quais resolvi escrever esses textos).

O velho manual da Clymer vai clarear bastante, mas é pouco. Tem outros manuais de shovel com os part number, manuais de serviço, blogs com tutoriais e é preciso pesquisar. Alguns foruns apresentam soluções interessantes mas não espere nada muito detalhado.

Por final, se você não sabe algo, pergunte a quem sabe. O Hadys e o Wagner são meus consultores quando tenho dúvidas e eles tem sido pacientes comigo. Não fico enchendo o saco e só chego quando travo na dúvida, mas não deixo de correr atrás para resolver.

E quando chegar o momento de pedir ajuda a um profissional, vá em frente. Não é demérito nenhum. Agora que vou reformar toda a parte elétrica da 69, chamei um eletricista especialista em carros antigos. Até fio de pano o cara usa.

5 comentários:

Dalton Cordeiro disse...

texto ótimo, sempre tive vontade de aprender sobre mecânica... Vou seguir o seu conselho e estudar pela net, futuramente vou entra num curso técnico de mecânica depois de juntar uma grana.

Camata disse...

Estou com uma gordinha (dyna 09) na garagem. Estou planejando uma revisao simples para ela feita por mim (basicamente troca de fluidos). A dificuldade começa que minha ferramentas metricas nao servem e meu conhecimento basico em virago e shadow quase nao valem nada.
Li bastante na internet, encomendei um clymer e estou caçando umas ferramentas. Apesar de ainda ter muito pouco, tenho coragem.

125ecia@gmail.com disse...

Gostei, esse blog foi uma grande surpresa que acabei localizando por acaso.
Continue postando.

125ecia@blogspot.com

Ramon Noga disse...

Tanto tempo já se passou desde que publicou este post, e ele continua ajudando. Parabéns.

Anônimo disse...

Que bom que ainda tem gente como voce que insentiva isso com naturalidade.
e ainda por cima encara com classe os comentários ou críticas em se faz distinção
e em tom irônico "mais um MEXÂNICO".

MEXÂNICO com muito orgulho!!!Parabens!!!
Sou assim também gosto de me interter com minhas motos. Melhor
que as mas companhias e faz bem à alma.