quarta-feira, 30 de julho de 2014

Caçadores de Esmeraldas


No início dos anos 70, durante um certo período que não sei precisar, minha casa serviu de ponto de encontro dos sócios de uma lavra de esmeraldas em Goiás.

Eram uns cinco sujeitos, incluíndo meu pai, então com uns 35 anos, e meu Tio Luiz, seu irmão mais novo e companheiro em todos os negócios.

Todos (ou quase todos), devidamente armados, lógico.

Chegavam da mina com a caminhonete cheia de grandes pedras brutas amarradas em sacos de ráfia, sempre de madrugada.

Lá, sentavam em volta de uma garrafa de uísque, acendiam seus cigarros e conversavam sobre a pureza desta ou daquela amostra.

Sempre com um olho no peixe, e outro no gato.

Ainda criança, via aqueles homens sujos, barbados e de olhos vermelhos relaxarem à medida em que meu pai limpava algumas peças e expunha os belos lápis de esmeraldas.

Meu pai era o único que limpava as pedras brutas. Usava uma válvula de motor, esmerilhada na ponta, enquanto os demais conversavam, riam nervosamente e acompanhavam o serviço.

Concentrado, meu pai nunca dizia nada.

E eu observava...

Lá pelas tantas, mergulhavam as pedras brutas em tambores com ácido para dissolver a mica, o quartzo e o feldspato que envolvia os belíssimos lápis verdes de esmeralda.

E lá as esmeraldas pernoitavam, dentro de um quarto escuro, junto com peças do Mustang 67 que meu velho trocou por um relógio depois de chapar ele numa esquina.

A primeira vez que meu pai foi à mina de Goiás, os sacanas espalharam entre os peões que um pistoleiro bom de tiro estava para chegar. Ganhou fama rápido. 

E calhou dele chegar na hora do recreio. Uns 15 homens faziam tiro ao alvo em pequenos vidros de penicilina equilibrados nas rochas a uns 20 metros de distância. Ninguém acertava aqueles vidrinhos àquela distância com um revólver.

Foi descendo do Jeep e logo o silêncio foi rompido por um cabra mais corajoso.

- "Seu" Paulo, não quer dar uns tiros?

- Não!

Meu pai estava com um revólver 22 de seis tiros e andando na frente da fila de homens, sacou a arma, fez pontaria e POW!

UUUUUuuuuuuuu....

Voou vidro prá todo lado.

Os homens se entreolharam e abaixaram suas cabeças para não cruzar o olhar com Paulo, a esta altura, o maior pistoleiro do oeste.

Era o topo do mundo.

E foi aí que a vida se mostrou em toda a sua plenitude...

Após o primeiro tiro, ele descarregou uma caixa com 40 balas e não acertou mais nenhum vidro.

Meses depois, um dos sócios sumiu com um belo lote de esmeraldas e fugiu para os EUA.

Depois, perdeu o tal relógio quando pôs o braço para fora do seu fusca 73 amarelo-ovo.

O fusca acabou sumindo numa noite, na porta de casa.

E o 22 foi dado ao grande amigo Milton Ribeiro, que acabou se suicidando com ele com um tiro na cabeça.

Sempre gostei dessas histórias...

2 comentários:

Tovar disse...

O Tarantino precisa saber essa ...

Anônimo disse...

Feliz o homem que viveu estas boas historias .