segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

House


Tudo pronto para a operação. A Aracy já me esperava sedada e consciente do que precisava se submeter para ter a saúde recuperada. Passara os últimos 10 dias ao lado de Dercy e teve tempo para observar sua colega 3 anos mais nova inanimada, em estado de coma, aguardando seu coração voltar a bater.

O único alento proporcionado era o de que ouvira falar que o cirurgião não entrou pelo sistema de cotas, não era cubano e tem verdadeira aversão por lambança. Por isso, seu maior receio, o de ser canibalizada e ter seus órgãos transplantados para compor sua colega, fora atenuado.

Procurei deixá-la tranquila. Apliquei-lhe algumas doses de WD nos parafusos carcumidos que prendiam o tanque, sinalizando que meu método de trabalho seria o menos dolorido possível. Seus pneus estavam arreados, praticamente sem ar e ela relaxava cada vez mais em minhas mãos.

Depois de alguma conversa sobre o que fazer, preparei o instrumental. Uma cadeira de cada lado, embornal com todas as chaves de boca, caixa de ferramentas, conjunto de bits, conjunto de soquetes, martelo de borracha, marreta, desengripantes e gasolina.

Em silêncio, mantive a concentração, apesar de esconder dela minha apreensão com a cirurgia. O diagnóstico era parecido com o de Dercy: gases queimados no miolo de seu coração e expelidos em grande quantidade pela bunda. Mas o que me deixava tenso era a idade dela e a falta de informações sobre seu passado.

Não tive como fazer anamnese mas, os primeiros exames revelaram pouco apreço com a saúde dela nas cirurgias anteriores. É provável que seu estado de tensão esteja relacionado com traumas adquiridos em etapas pretéritas de sua vida.

Eu já sabia o que precisava ser feito, mas a falta de informações elevava o risco. Coloquei um colete velho cheio de bolsos sujo feito pau de poleiro, uns óculos magnéticos e parti prá dentro. Sem luvas. Sou da antiga escola. Não me dou bem com essa coisa.

Antes de encostar o bisturi, não resisti e dei uma boa olhada no corpo dela. É linda! O guidão com os botões originais brancos, o design do velocímetro, as luzes-espia, a tampa do cabeçote, a tampa do comando de válvulas, a suspensão dianteira... uau...

Voltei a me concentrar. Primeiro drenei a gasolina do tanque cortando a mangueira já ressecada demais para sair do bico da torneira. Aproveitei e abri o dreno da cuba do carburador. Daí, soltei o cabo do acelerador e tirei o Keihin Butterfly atravessando o bit com prolongador. Depois tirei o coletor com a phillips comprida. Reservei tudo.

Fui para a parte de cima e tirei o console de instrumentos expondo o tanque. O tanque bipartido é preso por quatro parafusos, dois na frente e dois presos no quadro. Primeiro o direito, depois o esquerdo e pronto! Aracy está despida.

Dei uma volta para o outro lado e tive acesso ao suporte do motor. Esse suporte tem o formato de uma ave em voo, tendo duas grandes porcas presas nos cabeçotes e uma no quadro superior. O coração estava praticamente liberado mas faltava a pior parte: os escapes.

Soltei os prisioneiros e os parafusos da ponteira. O 2 em 1 é segmentado mas achei complicado desmontar todas as partes e desci meio centímetro do conjunto. Devia ser suficiente para sacar os cabeçotes.

Tudo pronto, limpei o suor da testa, mandei uma talagada d´água prá dentro. Agora vem a parte séria.

Como esperava, os parafusos do cabeçote estavam com um torque animal. Suava feito tampa de chaleira quando consegui retirar o último dos 10 que prendem os dois cabeçotes. Usei uma combinação de 4 chaves para conseguir retirar: uma starter, duas de boca e um soquete estriado, fora a ponta dos dedos, como sempre. Por isso não uso luvas.

Saquei os dois cabeçotes com a ajuda do martelo de borracha e reservei. Vou abrí-los depois para saber como estão as folgas dos eixos e o estado dos balancins.

Os cilindros também exigiram esforço porque as porcas eram diferentes. Mais uma talagada de d´água e tome limpar suor da testa e força para destravar as porcas. Coloquei os pistões no PMI e trouxe cada um dos cilindros para cima liberando as cabeças e bielas.

Pausa para avaliação da situação: os cilindros não parecem riscados e os anéis de segmento não estão quebrados como na Dercy. Mas ambos estavam alinhados. Curioso acontecer com os dois cilindros ao mesmo tempo.


Seria esta a causa de Aracy estar sofrendo tanto? Pode ser uma das causas, mas de uma coisa podemos ter certeza: Não é lupus. Nunca é lupus. Os anéis estão bem desgastados e podem estar permitindo a passagem de óleo para a câmara de combustão. Vamos ver.


Terminada a operação. O coração de nossa querida dama está aberto e será enviado para medição e retífica. Vai ficar novo e ela vai rodar firme por aí.

Mas ainda tem muita coisa para avaliar no corpão dela, principalmente um ruído persistente que vem da parte de baixo do motor. O que será? Não arrisco, mas pelo menos já sabemos que uma coisa não é.

5 comentários:

andré disse...

E a Bandida da Dyna? Abs e boa sorte.

Pedrão disse...

Tava tão queimada de ciúme das velhotas que teve uma pane elétrica. Estou há três meses andando com ela sem piscas, velocímetro, buzina e luz de freio.

Foi tirar umas férias na Brazil Custom.

Abraço André.

Rafael F. disse...

Estou 95% seguro que a Aracy é a senhora que morava do lado da minha Sporty, no Rio2. Todas as vezes que eu chegava da rua me dava um aperto no coração vê-la ali parada. Fico feliz que ela agora está com alguém que vai devolvê-la ao lugar que pertence: o asfalto.

Parabéns pelo blog e pelo trabalho.

abçs

Rafael F.

Pedrão disse...

Valeu Rafael. Demorou um pouco para ela chegar na minha garagem mas ela só sai daqui rodando liso.
Um abraço,
Pedrão

Anônimo disse...

Cara, parabéns pelo texto e pelo blog. Muito bom! Parabéns! Continuarei seguindo. As motocas já tem dono ou serão vendidas? Gostaria de ter uma idéia de investimento pra poder ter o prazer de rodar com uma dessas maravilhas por aí. Abraços e parabéns.
Leandro