domingo, 1 de dezembro de 2013

Caçadores de Relíquias


Um seriado americano chamado Caçadores de Relíquias (History Channel) tem obtido muito sucesso no Brasil. Sou fã! Em paralelo, uma postagem recente do Old Dog Cycles traz um conceito curioso a respeito do garimpo que se faz em celeiros americanos atrás de raridades. A isto chamam de Barn Find. (http://olddogcycles.com/2013/11/barn-find.html)

Vou aqui contar um pouco de minha experiência sobre o assunto.

Passei 10 anos de minha vida coletando raridades sobre o café no Brasil. Eu tinha uma pequena fazenda de café em MG e o objetivo era montar o primeiro museu sobre o tema no estado.

Frequentei dezenas de feiras de antiguidades durante anos a fio, fui a diversos leilões, encontros de colecionadores, sucateiros e ferros-velhos e rodei por muita estrada do interior atrás de peças que contavam a história do café.

O troço era uma cachaça. E o motivo era o inesperado pois, a qualquer momento, você podia se deparar com uma peça raríssima na mão de alguém que não tinha a menor ideia do seu valor. E isso era instigante e, ao mesmo tempo, melancólico, porque muita coisa fazia parte da história de vida das pessoas.

Mas, quanto mais eu garimpava, mais eu tinha certeza que estava salvando as peças da perda total. Certa vez, em Visconde do Rio Branco, MG, encontrei uma bela vitrola a manivela (que está comigo até hoje) de cerca de 1920 ao lado de um galinheiro, no meio do mato. O velho dono disse que seu pai reunia os filhos em volta da vitrola para ouvirem o único disco de 78 rotações com a música "Mala Noche". Ele tinha estima pela vitrola mas ela estava se perdendo no tempo e as galinhas a usavam de poleiro. Depois de muita conversa, levei para a casa.

Outra vez encontrei uma máquina de soprar café de 1900 em uma fazenda de Nova Friburgo, RJ. Uma peça raríssima do tamanho de um fusca, toda encaixada em madeira, sem nenhum metal e com as peças numeradas pelo artesão em algarismos romanos. Estava na família há gerações mas, apesar dos seus 300 quilos, levei prá casa sem muito esforço de negociação, mas com triste clima de despedida.

A preocupação com a perda permanente de peças históricas é real. Muita coisa de metal foi derretida junto com sucata e se perdeu para sempre. Vi isso de perto conversando com os antigos em MG que se recordam de moedores, beneficiadoras, torradores, balanças, implementos e várias outras coisas que foram vendidos ou doados a sucateiros.

Uma vez encontrei um moedor de café americano de 1910 sendo lançado de cima de um caminhão de sucata em um ferro velho no interior de MG. Quando vi ele na mão do sujeito no alto do caminhão, gritei, mas já era tarde. Bateu com força no chão quebrando a roda de ferro. Um moedor raro que perdeu valor por causa da solda que fui obrigado a fazer, mas que, pelo menos, está preservado em seu valor histórico. E as outras milhares de peças que passaram por lá sem eu ver?

No campo da documentação a história se repete. É comum encontrar a vida inteira de certas pessoas em feiras de antiguidades, desde seu passaporte ao Diploma em Medicina. Coisa de herdeiros que jogam tudo no lixo e não imaginam que os catadores estão atentos a estes documentos, e são treinados e remunerados para recuperá-los. Qualquer documento a 1 real.

Foi assim que consegui comprar duas pastas recheadas de documentos (alguns confidenciais) do ex-Embaixador Frazão, Presidente do extinto IBC - Instituto Brasileiro do Café nos anos 60 e 70, com várias passagens e troca de "telex" com Ulysses Guimarães e outras autoridades do Brasil e do mundo. Um achado!

Existe um mercado do lixo que funciona. Conheci em Vila Isabel, no Rio, um professor de história que pagava dez catadores de lixo para coletar documentos jogados fora. Comprei dele uma série de fotos do IBC dos anos 60, algumas com manchas de sujeira indeléveis. Em outro momento não consegui pagar o que ele pedia em um recente garimpo vindo de Gramacho, o maior lixão da América Latina. Era uma foto do Pelé com a camisa da seleção brasileira ostentando de um lado o escudo da "CBD", e do outro, a logomarca do "Café do Brasil".

Mas eu também tinha meus "olheiros". Nas feiras de antiguidades, todos sabiam que, caso aparecesse algo sobre café, era só me procurar. Nada podia passar sem que eu desse uma olhada antes. Numa cidade histórica como o Rio de Janeiro, essa cadeia de informação era fundamental. Saí muitas vezes de casa com os olhos vidrados seguindo o rastro de um documento histórico. Foi numa dessas que encontrei o manuscrito do Inventário de Bens do Barão de Barra Mansa datado de 1889, com suas fazendas de café, escravos, casas etc. Algo que deve ter sido guardado a sete chaves pelo Barão e que acabou na minha mão.

A busca era incessante e cada vez mais intensa. No garimpo, consegui achar a única Monarchinha que já vi, uma cafeteirinha de 1934 fabricada pela Monarcha. Ganhou lugar de destaque no Museu. Outro destaque que eu encontrei no exterior e que custou a chegar às minhas mãos foi a lata "Cafe de L´État de Minas Geraes", um design belíssimo com café em grãos com mais de 100 anos de idade.

Mas, uma das coisas que mais gostava de fazer era rodar pelas fazendinhas do interior. Em um paiol encravado no miolo da Zona da Mata mineira encontrei uma "Machina" de beneficiamento de café de 1935, com mais de 2 metros de altura, 400 quilos de peso e bastante cupim. Noutra, encontrei um "munho" com estimados 70 anos de idade no meio do esgoto da casa da roça, onde cada pedra mó pesava uns 150 quilos. Ralei as mãos, esmaguei um dedo e ganhei uns bons lanhos nos braços para carregar a peça.

Muitas outras histórias fazem parte desta experiência de vida. Com um acervo de mais de 300 peças, montei o Museu do Café numa casa velha que reformei lá na fazenda, coloquei as peças no lugar, mandei fazer expositores, quadros e estantes. Em um dos cômodos do Museu, coloquei quatro computadores descartados na cidade para aulas de inclusão digital para as crianças da roça.

Nem bem deu para inaugurar, numa bela manhã de domingo apareceu um senhor que gostou de tudo e ficou com a fazenda. Porteira fechada, nem olhei para trás para não chorar.

Minha fase de caçador de relíquias já passou. Fiquei com algumas peças que, de vez em quando, me servem para lembrar algumas aventuras e sacrifícios desta fase da vida. Uso um relógio de mais de 40 anos no pulso e estou satisfeito com as duas shovelheads pré-70 que guardo na garagem.

Mas não estou morto e, como não dá para desperdiçar oportunidades, sei de uma moto da PRF que está sobre um cavalete há mais de 30 anos, na casa de um policial aposentado que a pilotava e que a arrematou em leilão. Quem sabe?

O último tesouro escondido de que tive notícia foi essa Panhead Hydraglide 1949 leiloada no Lord of Motors e arrematada pelo Wagner da Brazil Custom. Meu faro, apesar de já cansado, diz que tem mais coisa por ai no fundo de alguma garagem ou oficina... sempre tem...


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