segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma boa história de restauração...


Março, 1988. O troço era cor-de-rosa, horrível, desgastado, surrado e torto, mas as formas deste monstro de ferro me seduziram quando o vi, pela primeira vez, abandonado e esquecido, entre outras motos que esperaram para serem consertadas, vendidas ou sucatadas, numa calçada do Rio de Janeiro.

Mesmo sendo leigo, não tinha dúvida que consistia de grande quantidade de peças originais. Dois grandes cilindros em "V" denunciavam uma cilindrada difícil de ser igualada por outra máquina no raio de quilômetros. Perguntei, e me disseram que era uma Harley-Davidson. Um documento emitido pelo Ministério de Guerra testemunhava a sua venda em 1972 como sucata para um ferro-velho na via Dutra. O namoro durou alguns dias, até que resolvi comprá-la, com a condição que o dono dela (e da oficina) a colocasse em ordem de marcha - algo que era impossível e acabou dificultando o negócio.

Finalmente, ela estava comprada assim mesmo e eu comecei a me virar para descobrir o que esta relíquia poderia ter sido. A primeira grande descoberta foi o Sr. Mário Manela, proprietário, não somente de uma Empresa de ônibus, mas também de uma Harley-Davidson WLC, um modelo parecido. Pela numeração do meu motor - 42WLA8334 -, ele concluiu que a minha máquina era um modelo militar (a letra "A" significando "Army") e que o prefixo do número do motor era provavelmente o ano de fabricação. Então eu teria que pintá-la de verde? - "Tudo verde. Verde-fosco. Tudo!" Ele me emprestou os manuais de serviço e de peças para copiar. E eu saí convencido de ser um futuro "colecionador" de uma belíssima motocicleta militar da época da Segunda Guerra Mundial.

Como tinha que "tocar" a minha fábrica de ultraleves, faltou-me tempo para por as próprias mãos na graxa. Estive contente em poder contar com a Oficina do Moto Clube do Brasil cujo falante mecânico a desmontou, mas o tempo passava mais rápido do que os trabalhos. Uma oficina mais tarde, juntaram-se lá os pedaços com a tinta verde-fosca, e o motor conseguiu soltar o primeiro rolo de fumaça à custa de mais dinheiro do que eu tinha gasto até então.

A partir daí só encontrei gente bacana. Uma alma caridosa, de nome "Morães" me arrumou um banco original e veio até minha casa para ouvir o meu motor e condená-lo com um firme polegar para baixo. Não cobrou nada para isso. Cansado de experiências traumáticas, tirei o motor e o desmontei na cozinha. Meu coração de mecânico começou a bater mais forte ao de ver as interessantes entranhas deste colosso. Pelo estado dos "órgãos" que saiam de lá de dentro comecei a entender a sua recusa de funcionar. O pesado eixo de manivela dançava torto. Quase todas as peças móveis, pistões, anéis, pinos, eixos, buchas, pistas de rolamentos, roletes, guias ... precisavam ser trocadas - uma catástrofe. Jurei não largar mais a moto na mão de ninguém. A partir deste momento, o projeto avançou.

Num encontro de motociclistas na Suíça conheci Elias, um holandês que veio com uma WLA. Ele vendia peças no país dele e me explicava quais não tinham de ser verdes, me respondeu a listas de perguntas e me mandava inúmeras peças e a indispensável tinta verde-oliva fosca no tom exato. Em outras andanças por museus nos EUA e coleções particulares na Suíça consegui ver uns belos exemplares de WLA's restauradas. Aos poucos juntava todas as informações necessárias para uma bela restauração, coisa que não era fácil antes do advento da Internet.

Pessoas, oficinas, empresas foram mobilizadas, todas ajudando com muita boa vontade e competência como por exemplo o Gimenes, do SENAI, em cujos tornos me deixava fabricar as ferramentas e recuperar as bolachas do virabrequim (e olhem que coincidência inacreditável: ele havia sido uma vez proprietário desta mesma moto!); ou a ATA que retificou os cilindros; o Eduardo Rodrigues da ERE que forrou a sela de couro com perfeição original; a dona Lena do Centro de Radiologia que fez uma radiografia da sela para reencontrar a posição onde eu havia de furar este couro para colocar os três rebites de cada lado (deve ter sido o paciente mais esquisito que ela já radiografou); a NIKEM, que zincou e cadmiou um grande número de peças sem perder um parafuso. As pessoas que me ajudariam a emplacá-la. O Helmut, que me assistiu ao trocar o óleo da caixa e regular o carburador. O fotógrafo Paulo Romeu Bissoli que faria a primeira foto depois da restauração...

Com o motor desmontado, dava para tratar e pintar individualmente as suas peças externas e finalmente ele parecia novo. Mas não só de motor vive a motocicleta. Os freios precisavam de embuchamento e lonas novas; a parte elétrica fiação, limpeza e ajustes; a transmissão correntes novas; o sistema de combustível ajustes e vedação etc. As peças grandes precisaram ser repintadas e montadas. Depois de cinco anos e centenas de horas de trabalho, a minha WLA estava "um brinco".

Na primeira tentativa, o motor despertou para a vida nova, com aquele som inconfundível que só ele tem. Aprendí "montar". Nada fácil, no início. A embreagem está onde normalmente se encontria o pedal de marchas. Onde em outras motos seria a embreagem, está o freio dianteiro. As marchas se mudam com a alavanca ao lado do tanque. Aprendi que o mais difícil é arrancar numa curva para a esquerda, quando seriam necessários dois pés esquerdos, um para equilibrar a moto e outro para embrear. Mas não só o condutor melhorou, a moto, a cada saída, andava melhor e motor ficou mais confiável e andou mais redondo.

Um problema ainda eram os pneus que estavam velhos, gastos e largos demais. Contatei tudo que era fabricante de pneus e entrei em cada borracharia que passei na zona norte - sem sucesso. Um belo dia aconteceu o improvável: vi dois pneus Firestone A.N.S. antigos, exatamente com as especificações corretas, dependuradas na parede da borracharia mais próxima de casa. Haviam dormido, sepultados durante décadas, embaixo de pilhas de pneus mais vendáveis e nunca haviam sido usados. Escondendo a minha felicidade para não estragar o preço, comprei-os imediatamente, quase de graça.

Desde então, a moto enfeitou a loja da Mesbla, na rua do Passeio, participou da feira do Automóvel no Rio Centro, de encontros de motocicletas em Rio das Ostras, Miguel Pereira etc, da Expo Harley-Davidson 100 anos em Curitiba e de outras exposições. Ajudou a fazer muitos amigos, como, por exemplo, da turma dos colecionadores de veículos militares antigos - CVMARJ que a acolheram calorosamente entre as fileiras dos seus possantes jipes e caminhões.

E por onde passa, para o deleite de olhos e ouvidos, ela conta história ao vivo.

http://www.netyet.com.br/fritz/harley.htm

3 comentários:

eduharley disse...

Muito legal o relato. Essa WLA é aquela que está sempre no museu conde linhares (do Exercito), em Sao Cristóvao? Aquela que vai sempre nos encontros do alto da boa vista, nos invernos cariocas? Se sim, tive o prazer de pilotar lado a lado com o dono, um senhor muito simpático. Descemos o alto juntos, até a Saenz Pena. Indescritível o " rolé".
Se nao é a mesma, bom saber que tem outra totalmente restaurada.

Pedrão disse...

Edu, creio que é a mesma. Uma beleza, não?
Abs.

eduharley disse...

É ela mesma! Vi em um site. Depois do alto, vi em Sao Cristóvao, em um evento no BG.
Uma beleza mesmo.