quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Esse sim foi Malvadão



Acabo de ler o livro de Élise Grunspan-Jasmin sobre a vida de Lampião. Sujeito doido e armado, com um bando igualmente doido e armado. O cabra tocava o terror no nordeste entre 1922, quando entrou para o bando de Sinhô Pereira, e 1938 quando foi emboscado pelos "macacos" na Gruta dos Angicos, em Sergipe.

Lampião era malvadão mesmo. Ganhou o apelido quando anunciou que queria entrar para o bando de Sinhô Pereira, em 1922, com apenas 16 anos, dizendo: "O meu rife, no péga dessa noite, num deixô de tê crarão". O qual foi logo remedado por um deles: "Hôme, se é assim, o rife desse minino é qui nem um lampião". Pegou!
   
Herdou parte do bando do antigo chefe e partiu pro sertão adentro estuprando, roubando, matando, castrando, cortando orelha, língua, dedo e os infernos. Na verdade a origem dos cangaceiros era de prestadores de serviços para exterminar inimizades e rixas, pagos pelos coronéis. Depois que os bandos ficaram independentes e passaram a decidir sua própria conduta.

Maria Bonita, por exemplo, era casada com um comerciante. Mas quando Lampião chegou na fazenda do pai dela, ele pôs o marido do lado de fora do quarto e passou noite com ela. De manhã, ela mesma fez as trouxas, despediu-se e partiu com o bando. Maluquinha a danada.


Lampião no centro e Maria Bonita à esquerda.

Um dos mais malvadões do bando era Corisco. Cabeludo e de olhos claros, entrou numa fazenda e raptou Dadá, menina de apenas 13 anos de idade. Consta que o estupro foi tão violento que ela teve hemorragia interna, que ele próprio tratou e cuidou. Dadá acabou se apaixonando por Corisco.


Azulão (de óculos) e Enedina + Dadá e Sabonete

Aliás, os nomes dos cabras sempre me fascinaram. Antes de entrar para o bando, perdiam seus nomes de família e lhes eram conferidos apelidos, normalmente relacionados ao seu ambiente natural, com nomes de árvores e animais. Os nomes: Elétrico, Quinta-feira, Mergulhão, Moeda, Alecrim, Enedina, Colchete, Macela, Labareda, Azulão, Sabonete e outros. (achei também um certo Pedrão, que era cangaceiro e jagunço do famoso Antônio Conselheiro. Cabra macho esse).

Prá não falar que a postagem nada tem a ver com motos, a organização tinha até uma semelhança com os motoclubes. Os PP´s, inicialmente usavam armas emprestadas e com a graduação (e volume de saques), podiam adquirí-las. Faziam os serviços de rancho  e, com o tempo e confiança, recebiam do chefe um lenço vermelho que identificava o sujeito como membro do grupo. Em seguida, mandavam providenciar uniformes iguais aos do restante do bando.

No final, foram todos degolados. Costume da época. Maria Bonita foi degolada viva inclusive, enquanto agonizava. Um dos primeiros a morrer foi Lampião, com uma azeitona na testa. Pegaram os caras dormindo, num vacilo que até hoje os historiadores não se entendem. Lampião era desconfiado, não comia nada sem antes aquele que ofereceu experimentasse antes. Andava com os cachorros Guarani e Ligeiro, que sentiam de longe o cheiro dos "macacos".



Os malvadões Maria Bonita e Corisco entre outros do bando.

Das mais diversas especulações, fico com uma. A de que Lampião achava que tinha o corpo "fechado". Depois de quase 20 anos perseguido por todo o nordeste sem ser pego, com 9 tiros pelo corpo e muita reza braba, o sujeito se achava invencível. Por isso vacilou. Fez o rancho num local com apenas uma entrada e saída, foi traído e caguetaram onde era o esconderijo. Além disso, subestimou a volante do Tenente Zé Ferreira com suas metralhadoras em fogo cruzado. Não tiveram nenhuma chance.