sexta-feira, 8 de abril de 2011

Boa Viagem Tio Etiene


Hoje acordei chorando. Triste mesmo. Ontem recebi a notícia de que meu Tio Etiene (Titiene) estava em estado grave no CTI de um hospital em GV. Minha mãe, guerreira, foi de ônibus ontem mesmo com Tia Leda. Eu queria ir de carro hoje mas meu carro velho e meu velho pai insistiram para não ir.

O choro conforta mas os meus são muito intensos. Além disso, nasci com problema, um mal incurável: a gratidão. Aí, falar com Tia Socorro ou com o Rominho, mulher e filho do Titiene, é lembrar o quanto sou grato pelo amor que ele me deu. Mais choro, na certa.

Duas pessoas se destacaram com bastante evidência na minha vida. Um foi meu avô Ajax a quem dedico o aprendizado do amor mais puro por um neto. E outro, o Tio Etiene. Ambos se foram. Agora, fico com as lembranças de tempos em que minha inocência e pureza eram meus maiores valores. Como foi bom ser criança.

Como esquecer as brincadeiras e o bom humor do Titiene. Dizia-se o mais belo, e fazia logo aquele olhar horizontal, com sobrancelhas estrategicamente cerradas a meio olho e o semblante dizendo: eu sou o bom!!! Era imperdível.

E aí boneca? Era seu cumprimento, indistinto, com amigos antigos e novos, numa demonstração cabal de que a entonação é a arte de dizer sem agredir. Ao contrário, o tal "boneca" sentia-se logo familiarizado com o algoz, um gozador temperado com seriedade.

Houve um tempo em que pescar era sua cachaça. Saia com sua turma para grandes rios brasileiros e voltava com a tralha cheia. Ele me levou umas duas ou três vezes com o Zuca em pescarias curtas, em rios mais próximos de Valadares, e com uma paciência incrível iscava meus anzóis, me ensinava certos nós na linha, destorcedor, chumbadas, etc.

Me lembro que, com uns 10 ou 12 anos, empolgado com pescaria, meu pai me deu um molinete da marca Paoli e uma vara de fiberglass amarela. Coisa linda!! Corri prá loja do Titiene prá mostrar, cantando vantagem e achando o máximo meu Paoli. Ele vira, olha pro Agostinho e diz: "Agostinho, olha só o Pau mole do Beto", seguido daquela gargalhada característica. rsrsrs

Me recordo do escritório com fotos de pescaria e ele me apresentando aos seus amigos como se eu fosse um adulto.

- Ô Zuca, boneca, tudo bem? Conhece o Beto? Ele é meu afilhado... Beto, Zuca. Zuca, Beto. Ele é filho do Paulo mas não gosta que fala não tá? rsrsrs

E o assovio? Fiu -fi - fiuu. Era a senha prá logo saber que tava chamando. Não há como não responder a um assovio e ele era mestre nisso. Fui contaminado e hoje eu, Bilu e os meninos nos comunicamos assim dia-após-dia. Obra do Titiene!

Eu e Zé Gustavo do Dr. Salomé éramos privilegiados no trato com ele. Éramos afilhados. O carinho dele com o Zé Gustavo era parecido com o que dispensava a mim. Incrível. Como dar amor sem pesar mais para um lado? Eu era parente, mais próximo, mas quando ele via o Zé, dispensava uma atenção que até me deixava com ciúmes. Garoto tímido, via-se claramente que o carinho era mútuo entre eles. Muito bonito.

Com 20 anos eu ainda ganhava um presentinho ou uma graninha dos meus padrinhos nos aniversários e natais. Depois, telefonemas, e sempre, palavras de amor. Nunca ninguém foi tão presenteado como eu. E os presentes que ele me deu ao longo da vida continuam aqui comigo, guardados em minhas lembranças e num enorme sentimento de gratidão.

Lembro daquela casa na ilha, fantástica, com a piscina onde quebrei meus dentes, cachorros, gatos, passarinhos e frutas, muitas frutas. Foi alí que tive contato com cajá-manga e araçá. Com Caetano Veloso. Com Rolling Stones. Foi lá naquela varanda próximo à piscina que ele explicou prá mim e pro Rominho, naquele momento com uns 10 ou 12 anos, o que eram os palavrões que falávamos, de forma didática e absolutamente respeitosa.

Em Viçosa ele me visitou junto com a Tia Socorro e a Laura. Foi à minha formatura. Em Setiba ficava os 15 dias de férias na varanda do apartamento sacaneando todos, fazendo amizades e batendo papo. Saía cedo com o Tio Lula ("O Placa") e às vezes com o papai para o Perocão e voltavam cheios de cana. Eu e Fernando éramos, na maioria das vezes, seus alvos preferenciais. Alvos fáceis. Também, vivíamos bêbados e a gozação rolava solta. Eu gostava disso. Bons tempos.

Ele gostava de me gozar dizendo que eu morava no Rio de janeiro, "a cidade sorriso". Cidade sorriso? Sim, porque quando você fala que mora no Rio o cara morre de rir de você. rsrsrs

Tio Etiene, meu padrinho, obrigado. Obrigado por tudo. De verdade. Você é inesquecível. Te amo. Faça uma boa viagem e leve consigo minha gratidão eterna pelos ensinamentos, pela paciência, pelo carinho.

Ah! como esse é um blog de motos, lembro que a primeira vez que andei sozinho em algo parecido foi na casa dele, numa "Italia 1" que comprara para os filhos. Foi emocionante.Uma volta no quarteirão para toda a vida. Obrigado tio!

2 comentários:

Guarim de Lorena Fotografia disse...

Pedrão. Meus Solidarios e verdadeiros pesares. Num momento dificil destes você nos presenteia com um belo texto. Parabens pelo desprendimento. Grande abraço, Guarim de Lorena

Pedrão disse...

Valeu Guarim.
Abs,
Pedrão