quinta-feira, 2 de julho de 2009

Mustangs e motos - uma paixão antiga

1970 - Governador Valadares, MG. Naquela época e naquele lugar, eram poucas as opções para quem desejava fugir do convencional e possuir uma máquina mais potente. Lá pelos meados da década, lembro-me de que os modelos mais velozes eram os Mavericks V8 e os Opalas 4100 250S de 6 cilindros, verdadeiros carros de corrida. (Uma curiosidade: o nome Opala vem da fusão dos modelos Open e Impala, da GM)

A cidade plana e a proximidade com a BR 116 (Rio-Bahia) era um convite aos "pegas". Muitos conhecidos morreram ou se estropiaram nesta salada que misturava juventude, ausência de legislação rígida, cultura alcoólica, carros pontentes, pouco investimento em segurança e a Rio Bahia. Considero-me um sobrevivente pois, nesta conjunção de fatores, escapei ileso de pelo menos 4 acidentes bem feios, fora os sustos...

Uma das cenas bizarras e inimagináveis para os dias atuais se deu em 1970, com uma espécie de gincana patrocinada pela Prefeitura que envolvia os mais potentes carros da cidade, na principal avenida do Centro. Não precisa nem falar que a segurança era pra lá de tosca. Lembro-me de milhares de pessoas nas margens da avenida "protegidas" por uma corda de sisal com carros zoando a toda em arrancadas e frenagens sonoramente demoníacas.

Eu tinha apenas 7 anos e meu pai, Paulo, me levara para ver o evento e torcer por seu irmão e sócio, Tio Luís, que participava com um Dodge Dart V8 branco com uma larga faixa vermelha nas laterais (posteriormente o playboy comprou um Dodge Charger, V8). A cada esquina, os carros deviam parar, pagar uma prenda qualquer, e arrancar rumo à próxima esquina no menor tempo possível. Era uma loucura de arrancadas e brecadas no piso de paralelepípedos da avenida.

Anos após, GV protagonizou outro evento da pesada e igualmente perigoso. Foi o "Quilômetro de Arrancada" que aconteceu na Avenida JK, já asfaltada. Carros e motos disputavam o "pega" chegando a 180 Km/h no final da avenida cercada por milhares de pessoas "protegidas" por uma corda. Acabou dando merda quando um batedor com uma Harley-Davidson, ao fazer o retorno no fim da pista, foi colhido por um carro que terminava o percurso, arrancando a perna do motociclista. Eu estava lá, na primeira fila, pois meu pai era um amante dessas máquinas.

Nessa época, meu pai tinha uma Honda 250 cc marrom, dois cilindros e robusta. Bela máquina, mas ainda inacessível para o pequeno Pedro que se contentava em ficar horas sobre ela, imaginando-se no futuro...

Ainda nessa década, meu pai adquiriu seu primeiro Mustang, um Hard Top branco, ano 1968, motor V8, com cerca de 300 cavalos. O dono do carro, Ivanor Tassis, não se interessava mais por ele, com motor batido e documentos em condição irregular. Meu pai, então, reformou toda a lataria e saiu à busca de um motor, dexando-o por anos guardado na garagem lá de casa.

Peças do motor viraram brinquedos nas nossas mãos, minhas e de meus irmãos. Aliás, ferramentas e pistões, bielas, carburadores, válvulas e toda sorte de partes do motor conviviam naquela casa enorme que tínhamos e de que tenho as mais doces lembranças.

Meus amigos de infância sempre me recordam das tardes que passávamos dentro do carro, jogando conversa fora e mexendo nos comandos do Mustangão. Meu Tio Luís achou um motor V8 de Maverick em Ouro Preto e o comprou. Mas o doidão nem se deu conta de que acabara de comprar outro motor batido. Pouco depois meu pai acabou comprando um Maverick usado inteiro, tirou o motor e vendeu a carcaça. Finalmente o Mustang viria a ter um coração para bater.

O carro ficou um show. O ronco do motor fazia o povo abrir caminho. Ninguém queria ficar na frente de uma máquina daquelas. Com 13 anos eu já dirigia o carrão, sempre com muito cuidado exceto numa ocasião em que, instigado pelo irmão mais novo do Edmundo "Borracha" em um Opala 4100, topamos um "pega" de 150 metros na rua do Colégio Ibituruna. Ganhei, mas, no final da pista, o susto - somente um burrinho de freio estava funcionando e, ao acioná-lo, a roda esquerda traseira travou, fazendo com que o carro perdesse sua trajetória. Mas, consegui dominá-lo e levá-lo para casa com segurança.

Numa bela tarde de domingo, meu pai, Paulo, voltando para casa após umas biritas, acabou batendo o Mustangão num cruzamento da Rua Israel Pinheiro. Imediatamente rebocou o carro até a porta da oficina para no dia seguinte iniciar o conserto. Porém, sua frustração foi grande ao perceber que havia cometido um erro - todos os cavalinhos, letras e demais cromados foram furtados durante a noite.

Foi aí que ele deu o carro ao seu grande amigo Nestor, da Ótica Mira, em troca de um relógio, que dias depois perdera atravessando a ponte da Ilha dos Araújos...

Insatisfeito, comprou um segundo Mustang, desta vez um Guia, V8, vermelho, ano 1974. Também rodei com ele durante anos e passei alguns momentos curiosos, naquela época com uns 16 anos de idade, como quando o motor pegou fogo comigo após uma lavagem na porta de casa. Foi só um susto mas acabou queimando todo o chicote, danificou o carburador e estourou a pintura do capô.

Pouco depois, um acontecimento marcante: saí com o Mustang para um churrasco numa fazenda na beira da Rio Bahia, cujo acesso se dava através de uma passagem de nível dos trens da Vale do Rio Doce. Na ida, beleza. Afinal, fui sozinho. Mas, na volta, dei carona para 4 pessoas, incluindo meu primo Fernando Brasil, rebaixando o carro a ponto de vê-lo com as quatro rodas no ar e a barriga presa na linha de trem. Pior, o trem estava à vista, vindo em nossa direção, com aquele farol monstro aumentando de tamanho.

Pânico geral. Acelerava e nada. Rodas no ar. Trem se aproximando. O Mustang morre. Motor apagado e a pressa para fazê-lo pegar, e nada. Nando, na frente, resolve sair do carro estimulado a porradas pelos que estavam no banco traseiro (o carro só tinha duas portas). Trem se aproximando. Ele não conseguia acionar a maçaneta que exigia mais de dois neurônios para abrir a porta. Continuo tentando mas o carro não pega. Trem se aproximando. Saio do Mustang e corro em direção ao trem gritando e acenando para o maquinista frear a tempo. Nando a esta altura já tinha decidido sair pela janela, assim como todos os demais, rolando na poeira e correndo da linha. O trem parou. Distância: 10 metros. Ufa!!!

30 anos depois, numa conversa com papai, decidi ver alguns dados do segundo Mustang na internet. E quem eu encontrei? o próprio, à venda no Espírito Santo. A mesma placa. Reconheço nas fotos cada centímetro do carro. Que saudade! O link do anúncio é: http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-95213710-ford-mustang-guia-v8-_JM

Fico feliz de escrever e rememorar meus encontros e aventuras com estas máquinas maravilhosas e agradeço ao meu pai o gosto por elas.




2 comentários:

Claudio disse...

Muuuito bom, meu caro Berolas.
Lembro bem do "Mustanguera" vermelho do Paulo Copo.
Dei boas risadas com a história do trem .Fiquei só imaginando o desespero do Nando Brá naquela cegueira toda tentando abrir a porta.
Grande Abraço.

Los Pedros disse...

Bracelete, foi um dos episódios mais engraçados que já passei na minha vida, embora sempre roçando no perigo. Um abraço. Los Pedros.